II Duas II

Talvez seja o jeito que você me olha.

Ou o jeito que ela me toca.

Pode ser a multidão de um lugar vazio.

Ou ela me preenchendo e nós a sós.

Sou eu dentro do teu bom humor.

Ou curtindo tua sincera gargalhada.

Teria sido a ponta ou o maço.

Entre noites de brisas ou de completa lucidez

Também podem ser as decisões. Essas não ditas,

solitárias e sobretudo sinceramente vomitadas.

Sou eu no seu cobertor e você no meu.

Por que se deitar?

Para uma história, você.

Para uma música, você.

Misturam-me desconcertante desconfiança.

Para as duas, quieto.

Parar

Que vida prostituída, perdida. Vive-se (alguns sobrevivem) nesse conjunto inevitável de acontecimentos, determinados a sorte. O tempo todo somos exigidos a construir muros, extensões, passagens. Não é dos bens os piores. Estamos suspensos pela mercantilização que faz procissão em filas de qualquer destino – o trânsito não se move.

 

 Cada vez mais nos importamos e damos atenção aos nossos sentimentos. É o que move, o que convém para si. E o outro? Conviveremos com fantasmas de nós mesmos?

Sempre tem alguém nos cobrando por algo. Todos os dias somos questionados pelas nossas posições sociais, decisões e ideias. Tudo ao redor constroi nossa identidade, e na corrente social, nossa identificação.

Mudanças, redefinições e trocas são constantes. Eis o desafio: parar e observar o hábito. Refazer a trajetória mentalmente, reconhecendo cada ato/hábito. Na qualidade fluida, todo excesso nos arrasta, nos joga para um espaço superficial e nele nada parece suficiente – o que não é necessariamente ruim, leviano, como um namoradeiro inconstante, por vezes gostoso.

Na parada eu fui até o dia clarear. Relações especiais, conversas, brejas, fumaças e passeios contados no passado por e para mim. Uns vens, outros vão, parece uma corrida natural… De cansaço, uns ficam e tudo segue. Chega-me os abraços partidos, os risos rasgados, a dança sem música, a noite sem luar, um carinho para dar. Aqui venho me permitir por poesia no corpo e por vezes seguir o fluído cotidiano. Pois, bem, como é difícil se comportar como ser humano.

Percebi que quando subo aquela esquina
Posso sentir o teu cansaço
Já te ganho no meu aconchego
Apresso o passo

Faço mal
Nunca me vi tão covarde pra assumir
Essas vontades.
Ando por dois lados

Nesses dias frios
Seja como for,
Finjo que não acredito,
Deixo a vida caminhar com isso

Ao nosso infinito de horas
Não dizemos nunca não
Repousar na calma
Desse confuso coração

desancora

Sei lá por onde andarás

Sei lá o que de veras senti

O ontem apaixonamento, hoje é estado de lembrança de excitação.

Apesar de você, ainda prefiro o meu exercício de desassombro

Com o coração inundado de sensações e a alma mergulhada,

pra bem longe da margem eu continuo.

Eu disse, minha decisão é sempre continuar.

Quero o medo domesticado

pelo amor que ofereço

por onde passo deixo e recebo um pouco.

Há quem queria ter uma âncora.

Prefiro os pés sem chão, apostando

no choque dentro desse recife de corais

Eletrocardiograma

Será esse apenas um exame? O que atravancava nosso caminho para respirar? Haviam pessoas, várias pessoas. Elas levantavam a cabeça, fechavam os olhos e dançavam conforme as vibrações sonoras daquela noite. O devaneio era permitido, mas havia você atravessando tudo isso. Havia o teu olhar desviando o meu caminho. Houveram problemas e mal entendidos, e por eles, nós passarinho? Diga que sim.

Nosso coração é movido a eletricidade, cada batimento, contração do músculo cardíaco, cada movimento das válvulas do coração é comandado por pequenos impulsos elétricos gerados no próprio coração. Sou movida por esses impulsos porque preciso provocá-los, a fim de arrancar de mim a sensação de qualquer outra pessoa possa me causar arritmias. Engano meu. Do que seriam esses impulsos sem dividir com o outro? Certo que o estímulo elétrico nasce no próprio coração. Estou convencida que ele não apenas nasce, mas invade outro coração e por isso não vou levantar a bandeira da ciência, já que aqui é aconselhável perder a cabeça e valorizar o sentimento do outro.

Aqui, tu és Kokoro, um ser que detecta a atividade elétrica do coração. Eu, um coração claramente inquieto. Contigo senti que tenho uma arritmia sinusal, apesar do nome assustar, essa é uma condição benigna, uma alteração do ritmo cardíaco provocada pela respiração. Sim, aquela respiração quase sem fôlego depois do teu beijo, aquela que me deixa tonta e sem rumo, enxergando apenas o teu olhar, sorriso e colo.

Mesmo que nesse diagnóstico o eletrocardiograma não tenha apresentado fatores de risco, não descarto um infarto. É permitido morrer e renascer várias vezes, perder o fôlego, recuperar o ânimo após um abraço no meio da rua iluminado pela lua. Não se completa um quebra-cabeça com apenas uma peça, será preciso encarar as peças espalhadas, encontrar o que encaixa, tolerar-se a si e ao outro quando não se encontrar, compreender o que afasta e se permitir compor um quadro inteiro.

À Kokoro. Com carinho, Kairós.

Não foge

4/4/14 Um dia escorregadio e te abro os braços. Desmonta-me como uma promessa que fazes pra si. Limita-se. Controla-se. Foda-te! A realidade é excessiva. Afoga-te. Que medo que te para na travessia e te arranca os olhos? Enxerga-te! Vens a mim como se todo grito meu te chamasse. E quando de veras clamo, tu gritas súbito. Cá estou pronta para calar-me. Engolir todo o cuspe e vomitar a mim. No tempo de recordação se esvazia a memória. Pudera eu habitar outro mundo em outro tempo e neles atravessar os sentimentos que me afligem. Seria desinteressante. Cá estou eu vivendo de excessos, sendo plural e sendo um eu a cada morte. Não há nada para se preparar. Tem mesmo é que sentir a dor, viver, ser e estar o que for. Te negas em pensamento, mas age de outro modo. Amo-te pelo monstro que és, pela não racionalização. Detesto-te quando te educam. Viras um monstro que pensa no paradeiro. Não olha o percurso. Que más educadores… Perdestes o caminho e quando jogo a carga em teus braços, cais… Isso não é poesia, amor. Esse é o fim que tem começo. Segura e não nega. O fim retorna quando não está acabado. À paixão violenta eu disse adeus. Mas, amor, a gente se reconhece. Não foge. Não foge. Não foge.

Re-des…

Há alguma coisa estranha dentro de mim
Uma facilidade para chamar qualquer um de amigo
Achar que estou só
Ou que essa multidão me sufoca com fumaça
Escrever em parágrafos de uma linha
Uma vocação pra amar
Um corpo que sente tudo e nada
Uma ingenuidade que espera respostas
Um nervosismo no pé
Com a mente quieta
Não quero mais esse parágrafo sozinho. Seguir. Percebo que posso, passo. Eu vou. Por que é desaconselhável perder a cabeça? Serei rio, onde ninguém freia sinceridade. Um ser sendo em seu devir.

É permitido não amar o passado. Perde-se. Encontrar-se. E no fundo de todos os prazeres que sigo a contar vírgulas há a nova angústia pelo ponto final. Pela chegada. Pelo permanecer. Pelo partir. Eu entro no caos. Aqui vem outro carnaval e eu troco de estação. Agora eu transbordo num tesão profundo… ora numa vontade de ficar quieta. Não há tempo demais, mas há tempos que quero gastar com alguém. Existimos em algum lugar não para nós, para o outro. Serei eu e você dividindo histórias e vida. Tu sempre inteiro como me chegará. Eu sempre inteira como te chegarei.

 

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